Palavra latina para o menino

Como ficaria alguns trechos da Bíblia se fossem melhor traduzidos?

2020.11.02 19:01 ssantorini Como ficaria alguns trechos da Bíblia se fossem melhor traduzidos?

Os 3 idiomas originais das escrituras que compõem a Bíblia são:
  1. Hebraico (quase todo o AT);
  2. Aramaico (primeira parte do Livro de Daniel);
  3. Grego (todo o NT).
A primeira tradução da Tanakh (que seria o "Velho Testamento") para o grego ocorreu no século II a.C. Foi a Septuaginta. Um faraó ptolemaico encomendou uma tradução das escrituras judaicas para colocar na Biblioteca de Alexandria. A tradição diz que setenta sábios judeus fizeram essa tarefa.
A primeira tradução para o latim (Vulgata Latina) foi feita no século IV d.C por São Jerônimo. Essa tradução se tornou a base da Igreja Católica. Somente 1100 anos depois teríamos uma tradução para outra língua (alemão) feita por Lutero.
As traduções às vezes são incompletas (preservam palavras da língua original, ao invés de buscarem uma palavra substituta) ou ruins (usam palavras com sentido diferente do pretendido na escrita original).
Alguns exemplos que lembro de cabeça:
1- Virgem = "mulher jovem", Emanuel = "Deus conosco".
Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel.
Isaías 7:14
Esse trecho é muito famoso e divulgado como uma profecia sobre o Messias, mais especificamente, sobre Jesus Cristo.
Olhando o contexto original, trata-se na verdade de uma audiência entre o profeta Isaías e o rei Acaz de Judá: O reino de Judá estava prestes a ser invadido por uma aliança entre a Síria (o rei era Rezim) e Israel (o rei era Peca). O rei Acaz e todo o povo judaico estava abalado e se cagando de medo:
Informaram ao rei: "A Síria montou acampamento em Efraim". Com isso o coração de Acaz e do seu povo agitou-se, como as árvores da floresta agitam-se com o vento.
Isaías 7:2
A idéia do rei Acaz era invocar a sua vassalagem com a Assíria (a potência da época) e pedir socorro. Judá era um reino pequeno e fraco, não teria chance alguma de resistir. Acaz então mandou remover todo o tesouro do templo, inclusive arrancando o ouro que tinha nas paredes, para enviar à Assíria e os "comover" a lhe socorrer. De fato foi o que ele fez, e de fato a Assíria atacou a Síria e matou o rei deles (Rezim), salvando Judá e frustrando os planos de invasão.
Isaías, como todo bom profeta de Yaweh, não gostava nada da idéia de se submeter à Assíria, ainda mais em troca de tesouros do templo. Ele acreditava que Yaweh teria poder para salvar Judá das mãos dos invasores mesmo sem a ajuda da Assíria.
Ele solicitou e conseguiu uma audiência com o rei Acaz. Na audiência Isaías lhe disse que Yaweh garantiria sua libertação e que ele poderia pedir um sinal para provar isso. Acaz respondeu que não pediria sinal algum, pois não seria correto tentar Yaweh. Isaías respondeu que um sinal lhe seria dado mesmo assim: uma mulher jovem iria conceber, daria luz a um filho, ele seria chamado "Deus Conosco", e antes que ele pudesse diferenciar o certo do errado, as duas ameaças a Judá seriam eliminadas.
Era costumeiro (uma espécie de moda) os profetas darem nomes aos próprios filhos com base em suas profecias. Oséias também faz isso em seu livro. No caso, Isaías provavelmente deu o nome de "Deus Conosco" ao seu próprio filho, que ele teve com alguma esposa ou concubina jovem, para com isso chamar a atenção para a sua profecia.
Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho, e o chamará Emanuel. Ele comerá coalhada e mel até a idade em que saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo. Mas antes que o menino saiba rejeitar o erro e escolher o que é certo, a terra dos dois reis que você teme ficará deserta.
Isaías 7:14-16
A palavra em hebraico que foi traduzida como "virgem" na verdade quer dizer "mulher jovem", não especificando se a mulher já fez sexo ou não. A palavra "Emanuel" foi mantida, ao invés de colocarem diretamente sua tradução ("Deus Conosco"). Essas duas palavras acabaram dando ao texto um sentido muito além do original, que acabou sendo usado posteriormente para profecias messiânicas.
2- Diabo = acusador, caluniador, dedo-duro
Então Jesus respondeu: "Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um diabo! "
João 6:70
Esse trecho passa uma idéia mais "mágica" de algo que seria bem mais mundano.
A palavra "diabolos" em grego significa algo como "acusador" ou "caluniador". Com o tempo, a persistência dos tradutores em manterem a palavra original ao invés de procurarem uma mais adequada à língua-destino acabou dando a essa palavra uma dimensão mais "mágica": passou a designar o próprio chefe do Mal.
(Ou pode ser que a própria tradição cristã de chamar o chefe do Mal de "diabo" tenha feito os tradutores manterem a palavra original).
Esse trecho, se fosse traduzido de ponta a ponta, ficaria mais ou menos assim:
Então Jesus respondeu: "Não fui eu que os escolhi, os Doze? Todavia, um de vocês é um dedo-duro! "
O que, convenhamos, faz muito mais sentido.
Há trechos em outros evangelhos e epístolas onde a palavra "diabo" aparece descrevendo explicitamente o ser do mal, mas esses evangelhos e epístolas são tardios, de uma época em que a tradição sobre o "diabo" já estava estabelecida.
3- Apocalipse = Revelação
Apocalipse significa "revelação" em grego, porém a ausência da tradução fez com que os termos "apocalipse" e "apocalíptico" entrassem no vernáculo como significando "fim do mundo".
4- Evangelho, Parábola e Epístola.
Esses termos quase nunca são traduzidos para o equivalente da língua-destino, embora não causem nenhuma interpretação diferente.O único impacto que eles têm é litúrgico: as palavras originais soam mais "sagradas" do que as traduções.
Esse fenômeno onde as palavras originais soam mais "sagradas" do que as traduções pode explicar porque muitas línguas mortas permaneceram sendo usadas para fins litúrgicos: o idioma sumério permaneceu sendo usado na Mesopotâmia por mais de 1000 anos após seu desaparecimento como língua falada. O hebraico também era usado pelos judeus para fins litúrgicos, embora a população da região falasse aramaico. O latim também permaneceu por mais de 1500 anos sendo usado pela Igreja Católica como idioma litúrgico.
As palavras criam uma "tradição" e geram uma "emoção" diferente das traduções. Vou só citar os exemplos:
Compare "O evangelho segundo São Mateus" com "A boa notícia segundo São Mateus".
Compare "arrependei-vos e crede no evangelho" com "arrependei-vos e crede na boa notícia".
Compare "A parábola do semeador" com "a comparação do semeador".
Compare "a epístola de Paulo aos coríntios" com "a carta de Paulo aos coríntios".
submitted by ssantorini to brasilivre [link] [comments]